O incômodo Censo Agropecuário
Roberto Malvezzi (Gogó)*O último censo agropecuário trouxe verdades incômodas que atiçaram a ira do agronegócio brasileiro. Afinal, a pobre agricultura familiar, com apenas 24,3% (ou 80,25 milhões de hectares) da área agrícola, é responsável “por 87% da produção nacional de mandioca; 70% da produção de feijão; 46% da de milho; 38% da de café; 34% da de arroz; 58% da de leite; 59% do plantel de suínos; 50% da de aves; 30% da de bovinos; e, ainda, 21% da de trigo. A cultura com menor participação da agricultura familiar foi a soja (16%). O valor médio da produção anual da agricultura familiar foi de R$ 13,99 mil”, segundo o IBGE. Quando se fala em agricultura orgânica, o percentual chega a 80%. Além do mais, provou que tem peso econômico, uma vez que é responsável por 10% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
O problema é que a agricultura familiar, além de ter menos terras, tem menos recurso público como suporte de suas atividades. Recebeu cerca de R$ 13 bilhões em 2008 contra cerca de R$ 100 bilhões do agronegócio. Portanto, essa pobre, marginal e odiada agricultura tem peso econômico, social e uma sustentabilidade muito maior que os grandes empreendimentos. Retire os R$ 100 bilhões de suporte público do agronegócio e veremos qual é realmente sua sustentabilidade, até mesmo econômica. Retire as unidades familiares produtivas dos frangos e suínos e vamos ver o que sobra das grandes empresas que se alicerçam em sua produção.
Mas a agricultura familiar continua perdendo espaço. A concentração da terra aumentou e diminuiu o espaço dos pequenos. A tendência, como dizem os cientistas, parece apontar para o desaparecimento dessas atividades agrícolas.
Porém, saber produzir comida é uma arte. Exige presença contínua, proximidade com as culturas, cuidado de artesão. O grande negócio não tem o “saber fazer” dessa agricultura de pequenos. E, bom que se diga, não se constrói uma cultura de agricultura de um dia para o outro. A Venezuela, dominada secularmente por latifúndios, não é auto-suficiente em nenhum produto da cesta básica. Exporta petróleo para comprar comida. Chávez, ao chegar ao poder, insiste em criar um campesinato. Mas está difícil, já que a tradição é fundamental para haver uma geração de agricultores produtores de alimentos.
O Brasil ainda tem – cada vez menos – agricultores que tem a arte de plantar e produzir comida. O Norte e Nordeste mais permeados pela tradição negra e indígena. O Sul e Sudeste mais permeados pela tradição europeia (italianos, alemães, polacos etc). É preciso, ainda, considerar a presença japonesa na produção de hortifrutigranjeiro s nos cinturões das grandes cidades.
Preservar esses agricultores é preservar o “saber fazer” de produtos alimentares. Se um dia eles desaparecerem, o povo brasileiro, na sua totalidade, sofrerá com essa ausência. Para que eles se mantenham no campo são necessárias políticas que os apoiem ostensivamente, até mesmo com subsídio, como faz a Europa. Do contrário, se dependermos do agronegócio, vamos comer soja, chupar cana e beber etanol.
* Integrante da direção da Comissão Pastoral da Terra nacional (CPT)
(Os artigos publicados não reproduzem, necessariamente, a opinião do Ibase.)
Publicado em 23/10/2009.


